por Junião

Em meados de 1997 eu, Junião – O Imbecil Mestre -, e Billy Cabeludo – não menos imbecil, conversávamos no antigo e antológico Bar do Escadinha, point Mamíferos. Era uma linda tarde de sexta e queríamos algo radical para fazer na noite que aproximava-se. De repente, veio-me em mente uma luz: “vamos para Dourado”, disse animado. “Mas nós vamos pra lá quase toda semana, isso não é radicalismo”, respondeu o aprendiz de tonto. “Vamos já, mas dessa vez deixaremos as motos em casa e iremos a pé”, completei eufórico. O pior é que o inocente palhaço aceitou.
Pouco tempo depois, por volta das oito da noite, estávamos partindo diante de inconformados olhares dos vários amigos ali presentes e em meio a proféticas frases: “isso não vai dar certo!” Mochilas mal arrumadas nas costas, calçados pouco apropriados, cajados improvisados nas mãos e lá fomos nós – munidos com litros de Catuaba ao invés de água. Foi pedir para se fud…
Antes de passarmos pelos Machados, com as luzes de Araraquara ainda nos lombos, tomamos um puta fecha de vários cachorros, sem contar que os pés já davam sinais de sofrimento. Ali mesmo, somente no início e há míseros quilômetros caminhados, vi que nos ferraríamos. Dispensamos a carona de um amigo que tentou nos convencer a desistir e seguimos firmes. Dali em diante foi acontecendo de tudo junto aos passos.
Mais cachorros querendo nos mastigar em todas as porteiras possíveis, escuridão brava pois não tínhamos lanternas, tropeços em todas as pedras existentes e torções nos pés pela falta de visão, sede de jegue do Piauí e língua colada no céu da boca pela falta de água, insetos nos olhos, caminhões de cana que passavam raspando por não nos ver no breu, terra e pedregulhos nas caras e nas costas jogadas pelos “Romeu e Julieta” e demais sofrimentos dignos de filme sobre a guerra do Vietnã. Nem Rambo e Bradock suportariam tais provações de hombridade.
Perto das três da manhã conseguimos chegar ao Rio Jacaré, já meio de arrasto e com só um quarto da missão cumprida. Havíamos calculado mal a velocidade do caminhar, o tempo a ser gasto e, principalmente, nossa forma física. A estrada engana muito e a pé o destino simplesmente “não chega nunca”. E o martírio continuou…
Bebemos água do rio para não morrer de sede ali mesmo e improvisamos camas com imundas caixas de papelão (restos de andarilhos) para dormir numa clareira da mata ribeirinha. Nessa altura a brincadeira já não tinha mais graça. Quando clareou o frio era insuportável e as dores no corpo mais fortes em virtude da friagem. Dores e um horrível café da manhã: miojo feito numa panelinha lazarenta com água suja do Jacaré, duas carambolas, um chokito e mais uns goles na Catuaba companheira. Já vi hotéis pulguentos com cardápio melhor, mas era o que tínhamos na mochila arrumada nas coxas. Eu disse umas palavras de ânimo para o Cabeludo e continuamos, já cambaleantes. Daquele ponto seria mais fácil chegar a Guarapiranga do que voltar para Araraquara. De lá ligaríamos para pedir “resgate da missão”. Eu odeio celular mais que tudo, porém os malditos fazem mesmo falta em certos casos clássicos.
Poucos lentíssimos passos após o rio e arrumamos briga com uns Ingleses numa super camionete importada. Nem sei de onde surgiram os gringos em meio ao nevoeiro matinal, mas se interessaram pela bandeira do Reino Unido nas costas do Billy. Não deram carona após verem que não éramos Britânicos, e sim “pés de macaco”; nisso eu investi nos caras com meu cajado. Acho que já havia perdido a lucidez…
Eles nos abandonaram, mas pouco depois passou um trator puxando uma carroça lotada de lavagem para porco e o simpático sitiante ofereceu ajuda, só que não deu para encarar. Vomitamos em conjunto pela nojeira geral, agradecemos e continuamos andando.
Nesse estágio da situação o “astro rei” também já judiava sem dó. Sol forte na nuca, falta de água e desidratação, fome, nenhum sinal de casa próxima, só cana nova dos dois lados, pés com bolhas, assaduras, cãibras, uma estrada de terra repleta de pedras soltas que sumia no horizonte trêmulo e falta de opções. O próprio purgatório…
Começamos deitar para descansar praticamente a cada dez metros, com medo “de verdade” de olhar um para o outro e já ver urubus bicando as bolas dos olhos. De repente mais um imenso “triminhão” canavieiro passou por nós em sentido contrário. O cara avistou a cena dos nossos solitários semi-cadáveres jogados na terra a espera somente da morte, deu ré no bruto e gritou: “e aí, Junião camarada, tudo beleza?” “Tenho uma caixa de isopor lotada de Skol gelada aqui comigo, aceitam umas?” Eu não conseguia acreditar no acontecimento…
Fui até a boléia e era mesmo verdade. Expliquei ao cara a imbecilidade que fazíamos, tomei e dei água geladinha para o Bilunga Zumbi do Sertão e, lógico, peguei uma latas para nos animar. Ele não nos levou pois seguiria outro rumo. Eu o cumprimentei, abençoei de coração e o vi sumir na poeira. Fato: até hoje eu não tenho a menor idéia de quem se trata, mesmo o cara sabendo meu nome. Só sei que esse amigo nos deu o combustível mais que necessário para prosseguir os quilômetros restantes sem falecer. Às vezes Anjos da Guarda se mostram de várias formas. O meu particular, como viram, é caminhoneiro e trabalha em usina nas horas de folga…
A visão da cidadezinha surgindo na paisagem foi, naquela situação, tão maravilhosa quanto assistir a um strip particular de qualquer Panicat… Por volta de meio dia do sábado chegamos literalmente de arrasto até o primeiro bar avistado. Nossa aparição assustou os pingaiadas de plantão no lugar: sujos, trêmulos, rostos vermelhos, descabelados, corcundas, mancando, com olhares de piedade, pés com bolhas em cima de calos e demais atributos de “sobreviventes”. Comemos desesperadamente pães com mortadela e desmaiamos na calçada, entre as mesas do estabelecimento. Eu cheguei até a sonhar com vida num plano superior.
Quando voltamos do “coma momentâneo”, contamos a história aos interessados ali próximos. Um filho da puta disse que havia nos visto sob o sol escaldante, só não oferecera ajuda por achar que fôssemos escoteiros. Eu tive vontade de partir para cima do corno para arrancar-lhe os olhos, mas faltaria força.
Após essa pequena recuperação de carcaça, eu, de joelhos pelas pernas bambas, liguei de um orelhão no próprio bar solicitando ajuda. Os lazarentos da turma que foram em auxílio nos humilharam exigindo, antes, que eu gritasse ao fone: “somos idiotas, somos idiotas, perdão por sermos tão idiotas!” O bar todo caiu em gargalhadas ao ouvir minha humilhante e lacrimejante súplica.
Depois de tal calvário repleto de detalhes eu jurei a mim mesmo que jamais me meteria novamente em tamanha estupidez. Jurei, porém dez anos depois repetimos a mesma palhaçada – fora outros absurdos iguais ou piores cometidos nesse extenso período. Fomos em sete pessoas na segunda aventura. “Sete”…
Só que essa mais recente, onde novos palhaços igualmente se estreparam com tantos e tão estúpidos detalhes quanto a primeira, eu prefiro que seja contada pelo meu grande irmão Tiago Ganso, também participante. Em 1997 não registramos os sofridos passos, em compensação a parte II conta com fotos aos montes. Divirtam-se e opinem “com sinceridade” quando forem postadas.
O melhor, ou pior se preferirem, é que o PROJETO III já está marcado para dia 30 de Março – coincidentemente no dia seguinte ao meu aniversário, um belo presente. Dessa vez sairemos de Brotas a noite rumo a Dourado. São aproximadamente 30 quilômetros de terra batida, belas paisagens e, logicamente, muito fumo. A gente nunca desiste. Não sei em quantos loucos iremos agora, só quero que todos os interessados saibam: “a vida é uma arriscada aventura ou não é nada, pois todo esse sofrimento aí contado é hoje lembrado entre cervejas e gargalhadas abundantes”… Abraços. Junião.

janeiro 27th, 2012
Tiago Pereira 

Já faz um bom tempo que não escrevo, mas em meu último post perguntaram-me se eu estava apaixonado por alguma garota ruiva… Na verdade não, era uma homenagem a Charles M. Schulz, o criador dos quadrinhos do Charlie Brown e toda sua turma. A referência, é claro, é a garotinha ruiva pela qual Charlie Brown é apaixonado.














